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O marco reconhece o trabalho de implantação nas redes brasileiras e a formação de uma comunidade de operadores que levou o protocolo à produção.

Parabéns aos profissionais dos provedores de Internet e a toda a comunidade técnica da Internet no Brasil. O país chegou aos 60% de usuários com conectividade IPv6. A conquista pertence a quem implantou o protocolo, sustentou sua operação e enfrentou os problemas que só aparecem quando uma configuração sai do laboratório e chega à rede de produção. Um reconhecimento especial cabe aos alunos dos cursos de IPv6, de Boas Práticas Operacionais para Sistemas Autônomos (BCOP) e do programa AceleraNET do NIC.br, que fazem parte dessa trajetória.

O resultado pode ser acompanhado no painel do APNIC Labs para o Brasil. Na série com intervalo de média de 30 dias, o indicador IPv6 Capable atingiu 60,04% em 27 de outubro de 2026. A marca significa que a capacidade de comunicação pelo protocolo já alcança a maioria dos usuários, segundo a estimativa do APNIC.

O resultado reúne implantações realizadas em redes de portes e arquiteturas diferentes. Para muitas equipes, o trabalho envolveu tanto a ativação no backbone e nos concentradores quanto a distribuição de prefixos aos assinantes, a compatibilidade dos CPEs e a incorporação do IPv6 ao monitoramento e ao atendimento. Os 60% dão dimensão nacional a esse esforço distribuído.


Captura do painel do APNIC Labs, realizada em 28/10/2026. Com o gráfico exibindo o período desde 20/07/2026 e o ponto de 27/10/2026 selecionado, a legenda apresenta 60,04% no indicador IPv6 Capable; o intervalo de média selecionado é de 30 dias.

O que o APNIC está medindo


O APNIC Labs distribui, por anúncios on-line, um programa que executa no navegador testes com objetos acessíveis somente por IPv4, somente por IPv6 e em pilha dupla. A execução dispensa um clique no anúncio. A observação das requisições nos servidores verifica a conectividade do cliente no momento do teste, incluindo o caminho até a plataforma de medição. A técnica foi apresentada, entre outros fóruns, no RIPE 73.

O IPv6 Capable registra a capacidade de completar o acesso por IPv6; o IPv6 Preferred, o uso do protocolo no teste em pilha dupla. No mesmo ponto em que o primeiro atingiu 60,04%, o segundo estava em 58,44%. Há, portanto, uma diferença de 1,60 ponto percentual entre capacidade e preferência observada. O APNIC explica essa distinção e o tratamento da distribuição geográfica das amostras em How we measure: IPv6.

Para interpretar o marco, importa considerar também a janela de 30 dias selecionada no painel, que atenua as oscilações diárias. O percentual estima a conectividade dos usuários; não mede bytes transportados nem a proporção de ASes que concluíram a implantação. Da mesma forma, a diferença entre Capable e Preferred requer investigação para ser atribuída a uma causa operacional específica.


O teste verifica a capacidade de acesso por IPv6 (IPv6 Capable) e o uso do protocolo quando IPv4 também está disponível (IPv6 Preferred). Ilustração baseada na metodologia do APNIC Labs.

Vinte anos de distribuição nacional, com antecedentes desde 2001


Em setembro de 2001, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) obteve um bloco de produção junto à ARIN, o registro regional que atendia o Brasil naquele período. O episódio está documentado no livro IPv6 Básico, da RNP/Escola Superior de Redes, página 205. Os arquivos históricos do LACNIC de dezembro de 2003 também registram delegações brasileiras, anteriores à distribuição nacional.

Em 24 de outubro de 2006, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) anunciou um acordo com o Registro de Endereçamento da Internet para a América Latina e o Caribe (LACNIC). A parceria deu ao NIC.br autonomia para distribuir IPv6 no país, por meio do Registro.br. As organizações brasileiras passaram a poder solicitar os recursos localmente, sem recorrer diretamente ao registro regional. É esse acordo de distribuição de IPv6 que completa 20 anos em 2026.

Em 2008, o lançamento do IPv6.br reuniu documentação em português e iniciativas de disseminação do protocolo. A partir de 2009, os cursos presenciais ofereceram um espaço para configurar, testar e discutir a implantação em equipamentos reais. O balanço dos dez anos do IPv6.br registra esse esforço para reduzir uma parcela importante do custo de implantação: a formação das equipes.

O alcance aparece nos registros da época. Em agosto de 2013, os treinamentos para provedores já somavam 80 turmas, mais de 2.100 técnicos e mais de 600 Sistemas Autônomos atendidos. Havia também cursos voltados a empresas, universidades e órgãos públicos. Os números foram apresentados no IV Fórum Brasileiro de IPv6. A experiência dos laboratórios ganhou outra forma de circulação em 2015, com a publicação do livro Laboratório de IPv6, disponível gratuitamente em PDF e acompanhado de um ambiente para realizar os exercícios.

Essa formação se ampliou para outros conhecimentos essenciais à operação. O curso BCOP reúne temas como roteamento, IPv6, interconexão e segurança. O AceleraNET aproxima a capacitação dos profissionais que estão começando ou precisam estruturar a operação de provedores de pequeno e médio porte, com formação prática em IPv6, roteamento, DNS e segurança.

Capacitação e expansão dos ASes brasileiros


Nas capacitações, IPv6 dividiu espaço com BGP, multihoming, interconexão e segurança. Essa combinação aproximou a implantação do protocolo das demais decisões de engenharia dos provedores. A formação em Boas Práticas Operacionais do NIC.br ajudou a preparar equipes tanto para operar IPv6 quanto para assumir a gestão de recursos próprios e das relações com outras redes.

As capacitações em IPv6 e outras boas práticas foram um dos fatores que habilitaram e incentivaram o crescimento do número de ASes no Brasil. O acesso ao conhecimento técnico ampliou as condições para que provedores de diferentes portes desenvolvessem autonomia operacional. Esse trabalho contribuiu para a diversidade de operadores e para o ecossistema de Internet saudável e competitivo que o país tem hoje, inclusive fora dos grandes centros.

A dimensão da expansão pode ser observada nos registros de recursos. No fim de 2006, os arquivos do LACNIC contabilizavam 321 ASNs brasileiros e oito blocos IPv6. Na fotografia de 27 de outubro de 2026, eram 9.124 ASNs e 8.966 blocos. O levantamento utiliza fotografias históricas do LACNIC e, para detalhar as delegações IPv6 entre 2008 e 2012, os arquivos do Registro.br.


Evolução dos recursos registrados para o Brasil. Os blocos IPv6 são contados individualmente, incluindo alocações e designações, independentemente do tamanho. ASNs registrados não equivalem a ASes ativos em BGP, e a posse de um bloco não comprova sua utilização. Fontes: LACNIC e Registro.br.

A capacitação integrou um conjunto de condições que favoreceram essa expansão. Houve investimentos dos operadores, evolução dos equipamentos, ampliação da interconexão e mudanças nas políticas de distribuição de recursos. O Relatório de Atividades CGI.br/NIC.br de 2010, por exemplo, já relacionava parte do crescimento das solicitações à flexibilização de requisitos para pequenos provedores. A formação técnica ajudou mais organizações a aproveitar essas oportunidades.

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) atuou na articulação entre os setores. Sua resolução de 2012 sobre IPv6 estabeleceu recomendações para provedores de acesso, trânsito, conteúdo e serviços, fabricantes, empresas, governo e instituições de ensino e pesquisa. Também reconheceu as ações de capacitação e coordenação do NIC.br. Havia, portanto, trabalho tanto para preparar as equipes quanto para aproximar as decisões de organizações que precisavam avançar em conjunto.

Da presença na rede à cobertura dos assinantes


Para as equipes que já implantaram IPv6, a próxima etapa é ampliar a cobertura efetiva e dar ao protocolo a mesma atenção operacional dedicada ao IPv4. Isso inclui identificar segmentos da base ainda sem conectividade, acompanhar o resultado por tecnologia de acesso e perfil de CPE, manter visibilidade de falhas e incorporar os testes por IPv6 aos procedimentos de diagnóstico.

O agregado nacional ajuda a acompanhar a evolução, enquanto as medições da própria rede orientam o trabalho cotidiano. Também permanece necessária a expansão do IPv6 em aplicações, serviços corporativos e conteúdo. A experiência acumulada pelos operadores — nos incidentes, nas migrações e nos ajustes de configuração — tem valor para quem ainda enfrenta essas etapas. Os cursos de IPv6, BCOP e AceleraNET e os encontros da comunidade continuam sendo espaços para fazer esse conhecimento circular.

Os 60% são um resultado do trabalho de quem colocou IPv6 em produção e o mantém funcionando. Aos profissionais dos provedores, aos alunos e instrutores e a toda a comunidade técnica, cabe o reconhecimento por essa conquista coletiva. A continuidade da implantação se apoia na capacidade que essas equipes construíram e na disposição de compartilhar o que aprenderam ao longo do caminho.

Fontes e materiais de referência


Marco de 60%: APNIC Labs — painel de IPv6 para o Brasil. URL: https://stats.labs.apnic.net/ipv6/BR  Consultado em 28/10/2026. Intervalo de média de 30 dias; ponto de 27/10/2026: 60,04% em IPv6 Capable e 58,44% em IPv6 Preferred. A captura e o HTML consultado foram preservados junto aos arquivos deste artigo.
Metodologia: Geoff Huston — How we measure: IPv6, 14/11/2025. URL: https://blog.apnic.net/2025/11/14/how-we-measure-ipv6/ 
Metodologia — apresentação pública: Measuring IPv6 Performance — RIPE 73, 2016, slide 4. URL: https://ripe73.ripe.net/wp-content/uploads/presentations/35-2016-10-24-v6-performance.pdf 
Antecedentes brasileiros: IPv6 Básico — RNP/ESR, 2014, página 205, reprodução consultada. URL: https://www.kufunda.net/publicdocs/IPV6%20b%C3%A1sico%20%28Ant%C3%B4nio%20Marcos%20Moreiras%2C%20Alexandre%20Yukio%20Harano%20etc.%29.pdf#page=221 
Registros históricos: LACNIC — fotografia de 15/12/2003. URL: https://ftp.lacnic.net/pub/stats/lacnic/archive/2003/delegated-lacnic-20031215 
Distribuição nacional: NIC.br — anúncio do acordo com o LACNIC, 24/10/2006. URL: https://nic.br/noticia/releases/nic-br-torna-se-distribuidor-oficial-de-blocos-ipv6-no-brasil/ 
Histórico do IPv6.br: NIC.br — balanço dos dez anos da iniciativa, 2018. URL: https://www.nic.br/noticia/notas/nic-br-comemora-10-anos-do-ipv6-br-com-debates-sobre-avancos-da-adocao-do-protocolo-e-desafios-para-iot/ 
Capacitação: Panorama das ações do NIC.br — IV Fórum Brasileiro de IPv6, dezembro de 2013, com dados dos cursos referentes a agosto daquele ano. URL: https://ipv6.nic.br/media/ipv6/2013/11/moreiras-panorama-acoes-ipv6.pdf 
Material didático: Laboratório de IPv6. URL: https://ipv6.br/pagina/livro-ipv6/ 
Formação: Curso BCOP. URL: https://cursoseventos.nic.br/curso/curso-bcop 
Formação: Programa AceleraNET. URL: https://cursoseventos.nic.br/curso/programa-acelera-net/ 
Formação: Catálogo de cursos de boas práticas. URL: https://bcp.nic.br/cursos 
Políticas de distribuição de recursos: Relatório de Atividades CGI.br/NIC.br 2010. URL: https://nic.br/media/docs/publicacoes/9/relatorio-atividades-nicbr-2010.pdf
Articulação: Resolução CGI.br/RES/2012/007/P — Recomendação para implantação do IPv6. URL: https://cgi.br/resolucoes/documento/2012/007/ 
Dados do gráfico: Arquivo histórico do LACNIC. URL: https://ftp.lacnic.net/pub/stats/lacnic/archive/ 
Dados do gráfico: Arquivo atual do LACNIC. URL: https://ftp.lacnic.net/pub/stats/lacnic/delegated-lacnic-latest 
Dados do gráfico: Estatísticas do Registro.br. URL: https://ftp.registro.br/pub/stats/

A série, as datas exatas das fotografias e as fontes por ponto estão em evolucao-ipv6-asn-brasil.csv; os procedimentos de contagem estão em pesquisa-e-proposta.md.

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